Há quatorze anos, eu me referi ao Tempo como "esse senhor de bengala e balão de oxigênio".
Hoje, vejo que ele não mudou. Continua o mesmo velhinho, talvez com umas rugas a mais, mas a mesma bengala de Carvalho e seu balãozinho de oxigênio. E ele continua ativo. Talvez por isso seja tão magrinho. Ele ainda sorri pra mim quando me aprova e meneia a cabeça quando algo lhe desagrada, mas ele segue. Às vezes ao meu lado, às vezes à minha frente, mas nunca atrás.
Quando eu estou devagar, quase parando, eu olho lá longe e ele está acenando pra mim, mandando eu me apressar. E é estranho, porque ele está com aquelas roupas de ginástica dos anos 90. É serio isso, Tempo, bandana?!
- Tá, tô indo. E lá vou eu, dar uma acelerada na vida.
As vezes, eu estou correndo, sem olhar para os lados, suando, aflita, sem perceber que a pressa é só minha. Não dele, não de mais ninguém. Então, eu olho pro lado e o velhinho está ali, sentado no banco de concreto da praça, com um baralho na mão, perguntando se eu quero jogar uma partidinha. Então, eu páro, eu respiro, eu até me indigno com ele antes de me indignar comigo, e eu aceito jogar no banco da praça, às duas horas da tarde, porque, aparentemente, isso traz longevidade.
Tem dias que a gente briga. Eu quero que ele corra, que passe rápido. E ele tenta me explicar que a marcha dele, apesar de inexorável, é cadenciada, ritmada, compassada, não depende de absolutamente nada a não ser da vontade deste velhinho de continuar. Não se pode apressar o tempo. Afinal, ele usa bengala. E ainda tem o suporte do oxigênio. E tem dias que eu quero que ele demore a passar e ele, com sua sabedoria milenar, pela milésima vez me explica que ele é o Tempo, aquele que não se pode deter.
Uma vez, esse vozinho quis fazer uma piada. Eu não lembro bem, mas era sobre ter esquecido algo e a resposta era "perda de Tempo". Rimos. E ele me pareceu extremamente humano. Então, eu perguntei:
Acho que, para um sábado a noite, quinze anos depois, está bom.
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